25 de mar. de 2009

Da Vaidade

“A vaidade é definitivamente meu pecado predileto”.
Sentenciou o diabo, interpretado com maestria por Al Pacino, no filme “O advogado do diabo”. O filme relata com muita riqueza o que uma pessoa é capaz de fazer para satisfazer a sua vaidade, o seu orgulho, e notadamente, a vontade do homem de possuir poder e os sacrifícios que faz para tê-lo.

De ver-se que a vaidade é um adjetivo oscilante, ou seja, é como uma moeda, logo, pode ser vislumbrada por dois lados. O primeiro é bom, é a vaidade saudável, a vontade de querer se sentir belo, de buscar um ideal, vencer na vida. Poder-se-ia dizer, talvez, que ela é compatível com a dignidade, que é um direito universal, já que todos possuem gostos e talentos próprios e querem satisfazê-los. Vem do amor próprio, do sonho.
Agora a outra face da moeda é um tanto perigosa. É a vaidade figurando-se como um grave pecado capital, evidenciada na busca pelo poder. No entanto, esta busca é revestida de cobiça, é inescrupulosa. É a auto-estima doente, é a necessidade viciada de buscar todas as atenções, trazer todo o poder para si.

Talvez a vaidade seja um pecado que graça sobre toda a humanidade. Tanto que já ouvi várias vezes que ‘se quiser conhecer uma pessoa dê poder a ela!’. E é por isso que é preciso ter muita cautela. Cautela para com os meios para satisfazer a vaidade e para não se ludibriar demais com os luxos que o dinheiro trás. Cautela para com a vaidade e suas diversas dimensões, a vaidade da beleza, do dinheiro, da sabedoria e do poder.

Um exemplo clássico é encontrado na Bíblia. Adão foi o primeiro homem a entregar-se à sua vaidade. Depois que Eva foi convencida pela serpente a juntar-se a seu companheiro e comer o fruto proibido, o pobre Adão não resistiu aos apelos da mulher. Não obstante possuísse o poder de desfrutar do Jardim do Édem, de sorte a comer todos os frutos de qualquer uma das árvores, a exceção daquele proibido pelo seu Criador, Adão foi desobediente, e invejoso até, não negou a sua condição humana e deu-se por insatisfeito, infrigindo a ordem divina. Desejou mais. Imaginou que se comesse o fruto proibido tornar-se-ia deus, e logo, conhecedor de todo bem e todo mal. O preço pela sua vaidade foi a expulsão do paraíso.

Muito embora tenha sido o primeiro homem a render-se à sua vaidade, Adão não foi o último. É que a vaidade existe também em vários níveis de moderação. Quem assistiu ao filme “O Senhor dos Anéis” se lembra da inquietação que pairava sobre qualquer um que se aproximava do anel. É que aquele que o possuísse seria senhor uno e absoluto de toda a Terra Média. Diante daquele pequeno objeto, olhos saltitantes de desejo brilhavam, e o pior, a mera possibilidade de possuir o anel, causava transformações passíveis de delírios.

E mesmo dentro dos corações mais nobres, às vezes a vaidade consegue transparecer-se, eu diria que como uma ‘pitadinha de pimenta’, uma ‘alfinetada’. Não raro conhecemos pessoas extrovertidas, inteligentes, detentoras de uma retórica impecável. Todos os olhares se voltam para ela! Entretanto, pode ser que no fundo de si, reine uma profunda insegurança fruto de algum trauma trazido da infância ou adolescência. Talvez sentir-se admirado seja uma arma para amenizar uma eventual chaga do coração.

Isso tudo me lembra a afirmação muito acertada de Jonathan Swift: "Repetem-nos na escola: 'A vaidade é o prato dos parvos'. Mas os sábios também condescendem em comer dele muitas vezes."

11 de fev. de 2009

Da Solidão

“Para me amar é preciso amar primeiro a minha solidão”. Rubem Alves escreveu esta frase no conto “Barbazul”, um dos textos do livro “Cantos do Pássaro Encantado”. Quando li me senti emocionada, como que minha alma fosse acariciada.

Pois bem. Nesse texto, o grandioso Rubem Alves narra a história de Barbazul, um homem de muitos amores e que só permitiu que uma mulher adentrasse em sua vida com plenitude, quando descobriu que ela o respeitaria em seus momentos de solidão. Respeitaria os momentos em que ele ficasse a sós com seus discos e filmes. Quando ele quisesse parar e refletir sobre a vida ou apenas admirar o nascer do sol ou a calmaria de uma tarde no campo.

Mas o fato é que esse texto veio corroborar o que eu há muito já acreditava e sonhava para minha vida. O “Barbazul” me fez refletir sobre os relacionamentos que tenho presenciado. Às vezes, as pessoas não são movidas pelos ciúmes do parceiro, em virtude do medo de sabê-lo nos braços de outrem. Mas é o medo da felicidade do parceiro que as invade por completo. Medo de sabê-lo feliz lendo um livro, de saber que existem amigos que o divertem ou que outras pessoas possam sentir o brilho do seu sorriso, do mesmo modo que ela o percebeu. Medo da atenção compartilhada, de imaginar mesmo de longe, que ela pode estar feliz através de outros meios que não seja a sua companhia.

Ou ainda, por outro lado, o desrespeito em relação aos momentos de tédio que todos passam. Aqueles momentos em que o parceiro fica taciturno, mergulhado em perguntas sem respostas, avesso a festas e comemorações.

Talvez seja a partir desse ponto que o relacionamento vai mitigando. Pelo desrespeito à individualidade do outro, e, notadamente pelo desrespeito à sua solidão. Solidão esta que deve ser enxergada como algo positivo, e não como um fardo, já que é temida pela maioria das pessoas.
Ora, alguns preferem se curvar a um relacionamento frustrante e tormentoso a imaginar-se sozinho. É o pior de tudo é não saber que a pior sensação não é estar desacompanhado, mas sim, estar só, pesadoradamente só, em meio a multidão. Estar só mesmo acompanhado e temendo estar desacompanhado por não se suportar. É a sensação de se sentir “uma prateleira repleta de frascos vazios”, como acertadamente escreveu Fernando Pessoa.

Mas, com efeito, devemos admitir que atravessamos a vida toda sozinhos. Nascemos e morremos sozinhos. Nunca teremos certeza se alguém nos acompanhará pela vida toda. Então, o ideal é aceitar a solidão como algo inerente à nós mesmos, e a partir desse raciocínio, buscar realizar nossos sonhos e resolver as adversidades com garra, sem depender tanto dos outros, na medida do possível, é claro.

4 de fev. de 2009

Sobre certezas e dúvidas

Vivemos sob o reino das certezas e é esse legado que a ciência moderna tem nos deixado sobre o mundo. Nunca soubemos mais sobre mundo do que sabemos agora. Sabemos de que elementos são constituídos todo e qualquer material, quantos anos tem o universo e que o mesmo está em expansão acelerada. Sabemos que existem 17 bilhões de insetos para cada pessoa. Mas, será que saber tudo isso nos orgulha? Tudo porque somos os únicos animais com a capacidade de refletir sobre nós mesmo?

Ora, as nossas certezas são currais onde as preocupações ficam presas. É que presas elas não oferecem perigo e não saber é muito angustiante. Um turbilhão de questionamentos nos inquieta nossa vida tão frágil. A que horas os ônibus vai passar? Eu aplico na bolsa ou compro imóveis? Fazemos uma viagem ou nos divorciamos?

Contudo, a certeza nos engessa, nos algema em eternas rotinas, afinal, por que mudar, se desse modo, tudo vai terminar bem? As certezas nos amaldiçoam ao criar padrões para o nosso cotidiano, fazendo da nossa vida uma equação matemática chata.

Saber, ter certezas, nos faz sentirmos seguros e nos ajudam a fazer planos. Certezas nos deixam navegar num oceano calmo livres das tempestades da dúvida. Certamente um homem cheio de certezas dorme bem melhor à noite, mas, um homem cercado de dúvidas vive bem melhor durante o dia.

Em 1927, Werner Heisenberg, o controverso físico alemão, talvez o maior depois de Einsten, postulou o “Princípio da Incerteza”, uma idéia segundo a qual é impossível medir simultaneamente e com precisão absoluta a posição e a velocidade de uma partícula, isto é, a determinação conjunta do momento e posição de uma partícula. Este princípio teve repercussão filosófica enorme, pois rompia com a idéia determinística de mundo e nos introduzia num mundo probabilístico, onde acontecimentos tinham apenas grandes possibilidades de se realizarem, mas, era impossível sermos envolvidos pela certeza. Heisenberg nos devolveu a emoção de viver. Nos colocou de novo no mesmo sentimento do homem das cavernas, nos trouxe de volta a vocação humana de navegarmos num mar de imprecisões e erros, nos chamou de volta ao nosso corpo o espírito do qual nos tornou o que somos, qual seja, seres atormentados pelo imprevisível.

Ter dúvidas nos move, nos faz buscar soluções. Ter dúvidas faz criar caminhos. Duvidar faz a nossa vida miserável e monótona valer a pena. Quem tem dúvidas não se paralisa. Sócrates tinha horror a certezas, por isso sempre declarava que a única coisa que sabia e que não sabia nada. Não me estranha o oráculo de Delfos ter declarado ele o mais sábio dos homens.

A dúvida nos premia com pureza de intenções, pois sem certezas o espírito julga sem pressões ou preconceitos. O Humberto Gessinger, líder e letrista da banda “Engenheiros do Hawaii” pensa de forma semelhante a minha, pois escreveu em uma das suas canções. Eu posso estar correndo pro lado errado, mas a dúvida é o preço da pureza e é inútil ter certeza.”

Termino este texto com muitas dúvidas sobre escrever mais sobre isto. Tenho uma certeza e é a mesma de Descartes, o “pai de um método científico”, esse tipo de questionamento lhe assombrava. “A dúvida nos possibilitava um núcleo de certeza... Se duvido, penso”

13 de jan. de 2009

A beleza da dor




Em 2001, Erick Refner ainda um estagiário no Jornal Berlingske Tidente da Dinamarca, resolveu cobrir a situação dos refugiados do Afeganistão, que à época era pouco comentada.

Conforme contido em seu próprio depoimento, o jornalista esteve em um campo de refugiados perto da cidade paquistanesa de Peshawar, próximo à fronteira com o Afeganistão, onde permaneceu por aproximadamente duas semanas. Ali havia cerca de 90 mil refugiados, tanto por conta da situação política, quanto pela seca no norte afegão.

Certo dia, soube que havia morrido um menino de um ano de idade no campo. A família, então, foi à barraca da “ONG Médicos Sem Fronteiras” e solicitou um abrigo branco e uma lápide.

De acordo com a tradição, são os homens que preparam o corpo do infante para o sepultamento. Neste caso, era o pai do bebê, o irmão e uma irmã. São estes os braços que dá para ver na imagem.

Naquela ocasião, Erick após dar os pêsames à família, perguntou se poderia tirar fotografias. E assim agiu o fotógrafo. Não obstante o fato de se encontrar em uma situação difícil, já que a família estava muito emocionada e ainda podia-se ouvir mulheres chorando em outras tendas, Erick Refner obteve êxito em seu propósito, sem ser hostil aos sentimentos daquela infeliz família.

Posteriormente ao término do preparo do corpo, todos saíram da tenda e os homens o carregaram por cerca de 2 km para um cemitério fora do campo.

A foto foi a vencedora do World Press Photo de 2001. Os juízes do World Press Photo descreveram a imagem como “simbólica e icônica”. E de fato é uma imagem muito marcante. Simples, mas, dotada de muita força.

De acordo com os dizeres do próprio Erick Refner: “Tem o grande contraste entre o manto branco e os braços escuros. A criança parece ter um pequeno sorriso no rosto, como se finalmente tivesse conseguido ir a um lugar melhor.Também tem o fato de que são pessoas de mais idade enterrando uma criança, deveria ser o oposto. Tem muito simbolismo nesta imagem. Tudo isso a torna muito poderosa.”.

Mas a Fotografia, como arte, realmente tem esse poder. Captar o sentimento do momento. Demonstrar que uma cena pesadoradamente triste pode ser enxergada, com a captura daquele momento fatídico, como algo dolorosamente belo. É que a beleza também existe nas situações tristes. Como certa feita proferiu Pierre August Renoir: “A dor passa, mas a beleza permanece.”.

19 de nov. de 2008

Sobre o Apego e o Desapego

Tenho certo apego ao passado. Por alguns momentos tenho esse fato como uma fraqueza, por ser irreprimível. Por outros momentos, no entanto, considero como uma virtude, pois indica que parte da minha estória de tão especial, tornou-se inesquecível.

É verdade que é bom ter recordações, principalmente no tocante aos momentos felizes e inusitados, aqueles em que parecemos ser protagonistas de um bom filme. É fato também que existem pessoas notadamente marcantes e que às vezes passam por nossas vidas por pouco tempo, eu diria até poucos dias ou poucas horas, mas que nos tocam profundamente, acariciam nossa alma como um bálsamo, e depois se vão. E depois se vão. Seguem peremptoriamente os seus destinos.

E o que fica são lembranças, a saudade. Ah, saudade! Aquela saudade traduzida pela ausência do toque das mãos, que pelo menos fisicamente, deixam de se encaixar. Saudade de não sentir o ritmo da respiração da pessoa querida ou movimento dos lábios quando ela sorri.

Isso tudo é “Coisa da Alma”, lembrando palavras do Grande Rubem Alves. Eu, inspirada pelo mesmo escritor, mas sem ousar ter o mesmo brilho e maestria, diria que existem pessoas que são ligadas por ‘laços espirituais’. Percebo que a vida às vezes nos distancia de pessoas que amamos em face de circunstâncias e vicissitudes diversas, porém, é interessante como que os laços ressurgem com os reencontros. Parece que a vida, depois de um tempo congelada, retoma o seu ciclo rítmico e aquela sensação de intimidade, de cumplicidade vem à tona. Pessoas queridas são sempre queridas!

A saudade e o passado são como espectros a nos inquietar o sono, grosseiramente comparando. E é por isso que o passado evidencia-se tanto como triunfo ou como uma ferida aberta que teima em não se cicatrizar.

Por outro lado, é fato também que o passado não pode nos assombrar. Não pode impedir que tenhamos outras aventuras ou apostemos em outras relações. Este tema muito me lembrou o poema de Mário Quintana, chamado “Canção do Dia de Sempre”. Nele, o poeta preconiza que é preciso viver cada dia de uma vez. Como as nuvens do céu. É preciso também dar chances às pessoas e não ficar comparando umas com as outras. “Sempre é outro rio a passar. (...) Tudo vai recomeçar!”

Com efeito. É preciso observar os sinais que a vida nos dá, saber quando uma etapa chega ao final, renovar. As lembranças necessitam ficar no coração, como pedaços de nós mesmos que se perderam... O coração cuidará bem delas, afinal, é tudo ‘coisa da alma’, são os ‘laços espirituais’...

7 de nov. de 2008

Companhia


Nunca me esqueci de uma frase que disse minha professora de literatura do colegial, certa vez, em uma aula: “Sou a minha melhor companhia”. Em um primeiro momento, poderemos pensar, ao ler essa frase, em apologia à solidão ou, até mesmo, ao egoísmo. No entanto, se pararmos para pensá-la em profundidade descobriremos uma realidade intrínseca à vida humana e da qual não podemos fugir.
É verdade que fazemos amigos. É verdade que a família é um bálsamo. E ainda, que temos relacionamentos amorosos intensos, e muitas vezes, maravilhosos. Mas, verdade mais intensa ainda é que cada um deve seguir o seu caminho.
Claro. Ninguém pode ficar estacionado, parado no tempo a espera de um desfecho para a vida. Todos abraçam diferentes destinos. Os amigos, nós os guardamos com carinho, com extremo amor, sempre nos lembrando de sua doce “companhia”. Contudo, não podemos tê-los todo o tempo. Fazemos novos, preservamos os antigos. Lembramos com doçura eterna. A família, que é nosso abrigo e consolo, também não estará para sempre a nossa disposição, pela separação natural que o tempo exige.
E os relacionamentos amorosos? Ah os relacionamentos... Quanto nos custam. Podem ser magníficos. Apesar disso, não podemos esperar que haja alguém no mundo que nos complete, e, aliás, como tantos defendem, alguém que seja obrigado a nos suportar eternamente.
Em outras palavras, a única pessoa que conviveremos o tempo todo somos nós mesmos. E por mais incrível que pareça, algumas pessoas não toleram ficar, nem por instantes, sozinhas. Não suportam a própria companhia. Muito triste. Um verdadeiro desencontro. É preciso que gostemos, sobretudo, da nossa companhia, de quem somos.
Portanto, não perca tempo buscando prender as pessoas ou impondo sua presença. Ao contrário. Cuide-se. Ame-se. Leia bons livros, poemas, ouça música. Faça cursos que gosta, aprenda continuamente. Estimule sua inteligência, faça valer a pena ser você mesmo. Seja uma companhia agradável a si próprio. E então muito mais gente gostará de estar ao seu lado, gozando da sua presença.
Se formos doces com as palavras, gentis e educados mesmo estando sozinhos. Se formos capazes de deixar transparecer o melhor de nós, então, com certeza, mesmo não estando lado a lado, estaremos no pensamento de quem nos ama. Seremos desejados.
Sim. Também eu sou minha melhor companhia. Gosto dos meus pensamentos, e gosto de analisar meu jeito de agir. Gosto de ler livros, de comentá-los comigo mesma. Gosto de ser eu. E isso falta à maioria das pessoas, infelizmente. Temos tantos modelos a seguir que, às vezes, nos esquecemos de nós. O essencial é cuidar-se sempre. Amar-se interiormente. Ser uma agradável companhia, ainda que não haja ninguém por perto.

4 de nov. de 2008

Sobre dons e talentos

Todos nós fomos agraciados com dons, talentos e gostos próprios.
Outro dia, tirei uns minutos da minha tarde e sentei-me para assistir um pouco do programa de televisão que minha mãe acompanha. O tema concentrava-se no fato de certas pessoas gostarem de dançar, se vestirem de forma extravagante e adotarem posturas nem sempre convencionais. Tais fatos incomodaram outras pessoas e foram estas que estavam no programa.
A finalidade era discorrer sobre o descontentamento com a postura daquelas.
Parei para pensar. Ser um pouco diferente do convencional incomoda, não? Tanto que para certas pessoas é intolerável estar numa pista de dança e não saber dançar, enquanto outras têm aquela leveza de pluma. Tanto que para algumas pessoas é indisfarçavelmente insuportável saber que vai chegar na turma aquela pessoa que sabe contar piadas e diverte todo mundo. Ou aquela que sabe poemas, demonstra interesse em discutir política ou sabe todas as atualidades com destreza.
O que me intrigou nessa postura pessimista é saber que pessoas insatisfeitas com a postura da outra, percam tanto tempo se preocupando em como o outro dança, se veste ou nos assuntos que gosta de conversar. E o mais curioso é que em contrapartida, a pessoa objeto das inquietações, a seu turno, continua do mesmo jeito, dançando, sorrindo e cantando, mergulhada em si própria, pouco importando se está agradando ou desagradando. O formidável pra ela é sentir-se solta, é mostrar-se entregue a seus desejos, livre dos olhares curiosos e vigilantes daqueles que são escravos das normas de conduta e etiqueta.
Cada um, em verdade, foi agraciado por Deus com dons e talentos próprios. O ideal seria não maldizer a conduta alheia. A meu ver, já que não se tem facilidade para dançar, o melhor é optar por outra programação, ou estando ali naquele ambiente, faça algo diferente para ser admirado, atrair a atenção alheia. Quem não sabe cantar, dançar, pode conversar brilhantemente, pode escrever um belo texto ou fazer-se admirar pela sua cordialidade e gentileza. Salve a simpatia, que muito embora seja a mais antiga, continua sendo, por excelência, a melhor arma de qualquer pessoa.
O mais significante de tudo é saber que não é preciso usar máscaras para chamar a atenção. O importante é assumir-se, vestir-se conforme seus próprios desejos, entregar-se rasgadamente a seus sonhos, aspirações e comportar-se da forma que se sente melhor. Já vi tantas pessoas dizerem pomposamente que adoram beber whisky, mas fica ali, com um copo a noite toda, com o temor de deixar transparecer alguma careta (!!!).
E assim são alguns fatos da vida e assim são alguns detalhes que fazem tudo tão diferente e as pessoas tão especiais de serem percebidas... é que todos temos dons e talentos muito peculiares...

22 de out. de 2008

Quando o simbolo muda de Casa

É impressionante como tudo, como diria Lavousier, se transforma. As coisas não morrem elas apenas mudam de casa, os símbolos mudam de casa, cada vez me convenço disso. Perdi meu avô ha pouco mais de um mês e a dor dessa ausência definitiva é desesperadora no início, mas, o tempo funciona como um anestésico lento, que não alivia a dor, mas a distrai.

Ele era velho, morava sozinho e passava horas do dia sentado na sua varanda, eu o via pouco, mas, sempre que ia a Lagamar o visitava. Pedia a benção, fazia algumas brincadeiras e me sentava ali do lado dele, ele tinha a bíblia na mão quase sempre, eu ficava ali do seu lado e ele lia longos trechos para mim, na verdade eu não me preocupava em entender nada eu só queria me mostrar interessado em ouvi-lo, no fundo é isto que importa, as pessoas querem ter atenção das outras, se sentirem importantes.

Quando vovô morreu, eu pedi a sua bíblia para mim, me foi dada, ela tem a capa preta e de uma tradução é evangélica convencional e tem muitas folhas soltas e precisa de uma reforma. Pegar essa bíblia me fez chorar, no fundo eu senti a dor dessa transferências dos símbolos do meu avô Alinhar à esquerdacomo o conheci e que agora já não existe mais, é doloroso o fim de um símbolo. Ele não é nada mais para mim que a Bíblia agora, esse amontoado de letras sagradas. Na verdade ele não é a bíblia física, ele é alma daquele livro, não pelo fato de ser a bíblia, mas, poderia ser qualquer outro livro. Ela se tornou uma testemunha dos nossos encontros, dos momentos intensos que passamos juntos, só nos dois. Nunca mais verei seu rosto maltratado pelo tempo e pelo câncer. Seu rosto agora é feito de letras, de canções, de promessas sagradas. Eu toco a capa como se tocasse seu rosto e gostaria de acariciá-lo, gostaria de niná-lo como a uma criança de quem eu pudesse cuidar.

Eu olho pra ela e ainda posso ouvir a sua voz trêmula e as explicações espirituais convictas que ele tentava me transmitir, lembranças são crianças brincado de se esconder atrás de uma árvore de vez em quando elas aparecem para nos dar sustos. Tento me lembrar dele de quanto morava na fazenda e ainda fazíamos rapadura e sinto o cheiro da garapa um suco de cana muito gostoso. Aquela casa na fazenda faz parte tanto dos meus sonhos quanto dos meu pesadelos, é impressionante o contraditório.

Eu tenho uma certeza, eu vou sentir saudades, este sentimento impossível de se traduzir, sinto que a terra cobriu uma parte muito importante da minha história e eu, eu sou como tudo neste mundo, eu passo.

16 de set. de 2008

Ausência Defintiva

24 de maio. Festa Nacional do Milho. Aniversário da cidade.
O bom da fenamilho é que reencontramos amigos e parentes que muitas das vezes moram longe...e que aparecem para prestigiar a festa.
A cidade alvoroçada recebe suas visitas com uma calorosa emoção, um tanto atípica se comparada com estação do momento...outono. Nesta região, no outono faz frio.
Mas aquele tempo frio e seco, deu uma pausa, e a noite ficou estrelada...como magia!
_ Oi querida! Saudades de você! Precisamos conversar, vamos sair, tenho tanto a te dizer...
Em meio ao clima de festa, nos entregamos à música e às lembranças da adolescência.
Na companhia de um litro de conhaque, sorrindo em tom alto, aquele momento parecia eterno para amigos que há muito não se viam.
“Se eu for parte de sua lenda você voltará um dia”.
Um dia ele me disse. E ele sempre voltava... dizia não conseguir ficar longe e me mimava como se criança eu fosse.
Naquela noite, mais uma vez senti que era amada silenciosamente... um amor trazido desde a adolescência, com um gosto de risos de crianças, de confissões contadas na varanda de casa, de sonhos perdidos no passado que foram preteridos por outros sonhos, nem tão ingênuos, mas dotados de mais maturidade e mais grandiosidade, esta grandiosidade que só a idade consegue traduzir, um tanto eivada de responsabilidade, mas também de um inefável carinho.
E eu também o amava, do meu jeito, como sendo meu primeiro amigo, como sendo aquele que me despertara o primeiro desejo de deixar a infância, mesmo brincando descalça na rua.
No fim da noite, me carregou no colo e disse que me amava.
..............................................................................
Ausência Definitiva. Ou seria uma saudade contínua, que sempre permanecerá?
Hoje, pela primeira vez deparo-me com a morte, tão perto.
Aprendi que devemos aceitar a morte, por ser uma conseqüência natural da própria vida e como um descanso deste mundo às vezes tão cruel.
Todavia, poderia ter restado mais...não ir tão cedo. É estranho, os bons morrem jovens!
Não pude dizer adeus, mas, não quero, prefiro ‘até qualquer dia’.
Prefiro lembrar-me de você e das nossas longas conversas, dos nossos sonhos e da fenamilho... que deixou de ser fria, pelo calor dos nossos sentimentos.

17 de ago. de 2008

Ao Leitor

No prefácio de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, em que Machado de Assis escreve o direcionando ao leitor, há uma referência à Stendhal que muito me marcou. Disse o Grande Bruxo, que Stendhal confessou quando da confecção de um de seus livros, que o havia escrito para não mais que cem leitores.

Modestamente, Machado de Assis, ou melhor, Brás Cubas afirmou que não se admiraria que seu livro tivesse no máximo cinqüenta leitores... Depois, quedou-se a reduzir o número dos possíveis leitores das Memórias Póstumas gradativamente... até que titubeante declinou cinco leitores. Cinco (!!!).

Ora! Forçoso seria relembrar que o livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, publicado em 1881, foi e é a obra mais destacada de Machado de Assis, este consagrado o maior escritor brasileiro de todos os tempos.

Em verdade, depois de fazer tão ousada referência é imperioso esclarecer que o objetivo pretendido aqui nesta sutil página de internet não é esperar que leiam minhas divagações os cinco leitores do “Defunto Autor” e tampouco os cem de Stendhal...

Aqui, caro leitor, encontrará apenas cacos... contas de vidro, nem sempre coloridas. Ou retalhos que juntos podem formar enfeites e até mesmo histórias engraçadas.
O que terá é o encontro despretensioso de amigos...
Amigos pensadores ou pensadores amigos? Amigos decerto. Apresentando cacos... juntando cacos... retalhos de vida, ora iguais, ora diferentes. Às vezes parecidos. Mas que juntos podem formar um vitral para que raios de sol por ele passe...
Para o mais, parafraseando novamente Brás Cubas, o que espero é “angariar as simpatias da opinião, e o melhor remédio é fugir de um prólogo explícito e longo ”.
Se nosso blog te agradar, “fino leitor, pago-me da tarefa; se não te agradar, pago-te com um piparote, e adeus.”.


Entre Cacos e Vitrais

Fragmentos são espécie de confissões sobre o todo, são pegadas que a plenitude deixa impregnada no mundo.

Cada dia o homem se convence que olhando pequenos pedaços do universo é capaz de encontrar respostas sobre o cosmo todo. O DNA é um exemplo disso, reflete o poder que os retalhos da nossa carga genética pode determinar. Basta uma única célula de um indivíduo para saber qual será sua estatura, sua cor dos olhos, e talvez até sua preferência sexual e possíveis características da personalidade. É uma espécie de predestinação.

Cacos de vida são exatamente isso, fragmentos de lembranças, uma colcha de retalhos com as nossas experiências: sonhos impossíveis, lágrimas tímidas que insistiram em cair, gargalhadas que acordam o prédio todo. Cacos de vida são fotografias das peripécias do acaso. Já um vitral é uma entidade sábia, afinal, ela deixa permite a passagem apenas daquilo que é capaz de iluminar, qualquer coisa que não seja raios de luz são incapazes de transpor suas convictas constituições físicas.

Juntar num mesmo momento cacos e vitrais e construir um holograma quase vivos de sentimentos humanos, é materializar os amores que se esconderam em alguma gaveta da cômoda, ou ficar dias tentando alcançar um ideal que ficou preso no alto de uma árvore.

Vitrais feitos de cacos fazem as luzes que transpassam se alternar em cores, e cor é tudo que faz as coisas serem diferentes, faz sua camiseta amarela ser nitidamente diferente da azul.

É o que faz da vida mais bela a diversidade de luz.

 
©2007 Elke di Barros Por Templates e Acessorios